Uma das principais idéias defendidas pela teoria darwiniana é a da origem comum de todos os seres vivos, desenvolvidos em formas mais apuradas através de um processo de seleção natural. Tal concepção caiu como uma bomba não apenas no mundo científico da época, mas, principalmente, no religioso. Como combinar esta nova teoria científica com a tradicional interpretação bíblica sobre a criação humana como imagem e semelhança de Deus?
Passados dois séculos, o embate entre criação x evolução continua a gerar polêmicas, haja vista a decisão de inúmeras escolas religiosas de orientação protestante, inclusive no Brasil, de incluir em suas grades curriculares alternativas à teoria da evolução. Como propostas “alternativas” às teses de Darwin surgiram movimentos denominados criacionistas. Bastante ramificado, o criacionismo, que faz uma leitura literalista do livro de Gênesis, pode ser encontrado nas seguintes formas:
* Criacionismo da terra jovem: Defende a opinião de que o mundo foi criado por Deus há seis mil ou, no máximo, 10 mil anos. Todas as espécies foram criadas da forma como se encontram, havendo alterações apenas dentro da própria espécie. Não aceitam a evolução para novos seres.
* Criacionismo da terra antiga: Bastante similar ao primeiro, apenas difere no que se refere à antiguidade do planeta e universo.
* Design Inteligente: Trata-se de uma versão criacionista que, supostamente, abre mão de pressupostos religiosos, alegando que a complexidade da natureza mostra um projeto intencional.
* Criacionismo da terra antiga: Bastante similar ao primeiro, apenas difere no que se refere à antiguidade do planeta e universo.
* Design Inteligente: Trata-se de uma versão criacionista que, supostamente, abre mão de pressupostos religiosos, alegando que a complexidade da natureza mostra um projeto intencional.
Esclarecidas as tendências divergentes, algumas outras questões logo vêm à mente de vários cristãos. O evolucionismo é necessariamente ateísta? Evolucionismo e cristianismo são inimigos irreconciliáveis? Teorias criacionistas como o Design Inteligente são realmente científicas? A resposta é não.
Preocupado com a acusação de ateísmo, Darwin defendeu-se através da seguinte declaração:
Preocupado com a acusação de ateísmo, Darwin defendeu-se através da seguinte declaração:
“Nunca neguei a existência de Deus. Creio que a teoria da evolução é plenamente conciliável com a fé em Deus. A impossibilidade de provar e compreender que o grandioso e imenso universo, assim como o homem, tiveram origem no acaso, parece-me ser o argumento principal para a existência de Deus”
Convém lembrar que o mesmo Darwin, antes de iniciar sua promissora carreira como naturalista, tinha em vista estudos teológicos, a fim de exercer o ministério anglicano.
Parcela significativa de seus biógrafos afirma que, no decorrer de sua vida, abandonou a fé cristã rumo ao agnosticismo. No entanto, Colin A. Russel, professor de História da Ciência na Open University, Inglaterra, fornece uma versão diferente:
“Vemos, então, Darwin se voltando para o deísmo como um Deus no início, que pode ser agora posto de lado para todas as considerações práticas. Seu materialismo pessoal sugere algumas vezes que até este tipo de Deus não tem significado, a natureza toma lugar de uma divindade. Todavia, em outras ocasiões, Darwin defende uma imagem mais nobre de um criador que não deu origem à crueldade ou desperdício na natureza, não brinca com o cosmos que já existe e não irá confundir qualquer inquiridor sincero em busca da verdade. Um Deus assim iria controlar o seu mundo mediante leis gerais, inclusive as da seleção natural. Tudo o que pode ser dito com certeza é que, durante quase metade de sua vida depois de 1850 ou pouco antes, ele foi um crente confuso”
Corroborando esta idéia, está o fato de Darwin ter sido um dos maiores colaboradores financeiros de uma missão anglicana sediada na Terra do Fogo, Argentina.
Mesmo condenada por boa parte do clero, a teoria da evolução foi aceita prontamente por vários cientistas e teólogos cristãos. Asa Gray, botânico estadunidense, professor da Universidade de Harvard e autor da clássica obra “Flora da América do Norte”, tornou-se um dos maiores defensores da teoria evolucionista na América do Norte. Gray era um evangélico piedoso, homem que dedicava parte significativa de seu tempo à oração e leitura bíblica. Ainda segundo Russel, dentre os teólogos, ao contrário do que se poderia imaginar, a teoria de Charles Darwin teve uma boa aceitação até mesmo em círculos conservadores. B. B. Warfield, teólogo presbiteriano de Princeton, considerado um dos pais do chamado evangelicalismo conservador, era evolucionista. Ardoroso defensor da inspiração bíblica, buscava conciliar a fé nas Escrituras com a nova teoria. Dentro da lista de evolucionistas cristãos, encontram-se teólogos como o escocês James Iverach, o anglicano A. L. Moore e o congregacional G. F. Wright.
Seguindo este pensamento, o trabalho desenvolvido pelo escocês Henry Drummond é bastante interessante. Pastor da Igreja Presbiteriana Livre da Escócia, Drummond, desde o início de seu ministério, se empenhou em conciliar ciência e fé, sendo conduzido ao posto de conferencista de ciência natural na Faculdade da Igreja Livre, em Glasgow. Em sua obra “Ascent of Man”, definiu a teoria evolucionista da seguinte forma:
“Até agora nada foi dito no sentido de reconciliar o cristianismo com a evolução ou vice-versa”. Por quê? Porque ambos são um só. O que é a evolução? Um método de criação. Qual seu objetivo? Tornar mais perfeitos os seres vivos. O que é cristianismo? Um método de criação. Qual seu objetivo? Tornar mais perfeitos os seres humanos. Através do que a evolução funciona? Através do amor. Através do que o cristianismo funciona? Através do amor. A evolução e o cristianismo têm o mesmo autor, a mesma finalidade, o mesmo espírito. Não existe rivalidade entre esses processos".
Digna de atenção é a expressão usada por Drummond, método de criação, ao se referir ao processo evolutivo. Para ele, assim como para todos os chamados evolucionistas teístas (pessoas que defendem a participação divina nesse processo), a evolução foi uma forma usada por Deus para criar e manter todo o universo. A função do livro de Gênesis não é ensinar ciência, tampouco narrar de maneira literal como tudo foi criado, mas, sim, proclamar de forma bela e simbólica que Deus é o criador de todas as coisas. A maior prova de que o texto bíblico não tem pretensão científica está no fato de existir dois relatos a respeito da criação. Os capítulos 1º e 2º de Gênesis falam sobre um mesmo tema, porém citam eventos diferentes e até contraditórios entre si. Desta forma, fica claro que o evolucionismo não conduz necessariamente ao ateísmo. Problemática é a interpretação filosófica feita por cientistas e filósofos céticos agressivos, como Richard Dawkins e Daniel C. Dennett. Segundo Stephen Jay Gould, ateu e um dos maiores cientistas evolucionistas, o darwinismo é inteiramente compatível com crenças religiosas convencionais- e igualmente compatível com o ateísmo.
Nos dias atuais, eminentes cientistas cristãos assumem-se claramente como evolucionistas. É o caso de Francis Collins, diretor do bem sucedido Projeto Genoma e membro praticante de uma igreja evangélica nos EUA. Em seu livro “A Linguagem de Deus”, Collins emite a seguinte declaração:
“Sem saber seu nome na ocasião, firmei-me confortavelmente em uma síntese que, em geral, é denominada evolução teísta, uma posição que acho muitíssimo satisfatória até hoje”
Na mesma obra, cita o pensamento do cientista e cristão ortodoxo russo Theodosius Dobzhansky, um dos grandes pensadores darwinistas do século XX:
“A criação não é um evento que ocorreu em 4004 a C; é um processo que começou por volta de 10 bilhões de anos atrás e ainda continua. Será que a doutrina evolucionária entra em atrito com a fé religiosa? Não. É um erro crasso confundir as Sagradas Escrituras com cadernos elementares de Astronomia, Geologia, Biologia e Antropologia”.
Outro exemplo bastante familiar aos protestantes brasileiros é o do doutor em biofísica molecular e teólogo anglicano irlandês de linha evangelical Alister McGrath. Também evolucionista, emite a seguinte opinião negativa ao chamado “Design Inteligente”:
“A teoria do Design Inteligente não é uma concepção que eu aceite, seja em bases científicas seja teológicas. A meu ver, os que a adotam tornam o cristianismo, profunda e desnecessariamente, vulnerável ao progresso científico”.
Após tão claros exemplos, fica claro que não há razão para este novo confronto entre ciência e fé. O que realmente importa é a certeza da força criadora de Deus, independentemente da forma como a mesma foi e é realizada. Por : ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA (Matéria Publicada na Revista Alvorada, da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil)
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Fontes:
Revista Isto É – Matéria de Eliane Brum
A Linguagem de Deus – Francis S. Collins – Editora Gente
Correntes Cruzadas – Colin A Russell – Editora Hagnos
O Delírio de Dawkins – Alister McGrath e Joanna MacGrath – Editora Mundo Cristão
Ciência e Fé em Harmonia – Felipe Aquino – Cleófas.
Revista Isto É – Matéria de Eliane Brum
A Linguagem de Deus – Francis S. Collins – Editora Gente
Correntes Cruzadas – Colin A Russell – Editora Hagnos
O Delírio de Dawkins – Alister McGrath e Joanna MacGrath – Editora Mundo Cristão
Ciência e Fé em Harmonia – Felipe Aquino – Cleófas.
creditos: cristianismolibertas